segunda-feira, 28 de julho de 2008

(IN)FELIZ(CIDADE)

Hoje, logo pela manhã, assim que acordei, abri a janela para que a luz do sol pudesse entrar e, quem sabe, aquecer um pouco minha pequena atmosfera-refúgio, meu mundinho seguro. Ao afastar as cortinas amarelas e empoeiradas, vi passar alguém que a muito não avistava. Abri rapidamente a janela e gritei:

- EI, FELICIDADE, ESPERE!!!

Então virou-se para trás e, girando a cabeça da esquerda para a direita, fingiu não reconhecer-me. Prosseguiu a passos lentos.

Apressei-me para alcançá-la. Saí de meu quarto, deslizei pelo corrimão, atravessei a sala, saí na rua e, ao olhar para a direção que havia tomado a Felicidade, nada avistei, a não ser, é claro, a ignorância que, como sempre, causava tumulto. Mesmo descalço e de pijama, corri por entre aqueles que transitavam sem por quê. Não me importei, afinal, eles nunca me vêem mesmo...

Após alguns minutos correndo desesperadamente, avistei-a de costas. Ela estava a conversar com a Ganância. À sua esquerda, a Humildade e seus filhos pedindo um pouco de atenção. Provavelmente queriam dinheiro para conseguir comida, mas sequer viram-na. Talvez por demais ocupadas.

Foi quando se aproximou a Crendice.

Ao chegar, tropeçou na Humildade. Enxotou-a, então, com chutes e golpes de toda natureza. Para isso, utilizou-se de um livro grosso, de capa dura. Na capa havia algo escrito com letras douradas. Pude ler “Sagrada”.

Desculpou-se depois.

Cabisbaixa, Humildade saiu.

Eu estava bem próximo. Neste momento fui abordado pela Falsidade. Tomou-me pelo braço e disse-me precisar de um favor.

- Não!- respondi.

- Mas pensei que fôssemos amigos? – argumentou.

- Preciso falar com a Felicidade.

- Não queres nem ouvir o que tenho a dizer? – instigou-me.

- Espere aqui, já volto – respondi.

Quando virei-me, Felicidade não estava mais ali. Então me voltei para a Falsidade. Já não estava mais do meu lado. Conversava com a Burrice:

- Preciso muito que me faça um favor...

Prossegui.

A todo instante um ou outro baderneiro seguidor da Ignorância esbarrava em mim. Realmente não podiam me ver.

Alcancei a Felicidade, afinal. Estava, agora, a conversar com a Arrogância.

- Não ouviste-me chamar-te? – perguntei.

- Sim, ouvi.

- E não paraste por quê?

- És tu quem deve alcançar-me – respondeu-me. Além do mais, ainda não ouviste o que tem a dizer-te a Falsidade. Escute-a e depois, somente depois, procures-me...

Eis que neste exato momento surgiu-me, por entre os ignorantes, uma velha amiga. Disse-me:

- Queres tomar um café comigo?

- Claro, Racionalidade. É sempre um prazer...

Virei-me e saí.


(Nilson Nogueira)

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